Consciência metalinguística e a representação da nasalização na escrita do português brasileiro
Metalinguistic awareness and the representation of nasalization in written Brazilian Portuguese
Fernanda Ferreira; Jane Correa
Resumo
Objetivo: examinar a representação da nasalização por crianças na escrita e a influência de habilidades metalinguísticas nesta representação.
Métodos: crianças com escolaridade entre o 2º e 5º anos do ensino fundamental realizaram tarefas para avaliação de suas habilidades de análise fonológica (aliteração, subtração e manipulação de fonemas), de consciência morfológica e ditados de palavras que visavam respectivamente a avaliação do conhecimento ortográfico e particularmente o domínio de diferentes contextos e marcadores da nasalização.
Resultados: a representação da nasalização para a criança é feita com relativa facilidade para a vogal nasalizada por "n" antes de consoante como pelo ditongo nasal "ão" em substantivos. Porém, os contextos de ocorrência da nasalização que se referem tanto a regularidades de posição como a regularidades de natureza morfossintática apresentam dificuldade para as crianças dos anos iniciais do ensino fundamental, tornando-se relativamente mais fáceis com o progresso na escolaridade. A consciência fonológica e a consciência morfológica correlacionam-se positiva e significativamente com a marcação da nasalização. No entanto, controlada a escolaridade, apenas as tarefas de subtração e manipulação de fonemas contribuem significativamente para a representação da nasalização.
Conclusão: a criança não dá um tratamento uniforme para a nasalização, entendendo que existem marcadores diferentes para os sons nasais e que estes são diferenciados segundo sua posição na palavra, embora não os usem todos de forma convencional. Diferentemente da consciência fonológica, a consciência morfológica não teve uma contribuição independente da escolaridade para a representação da nasalização.
Palavras-chave
Abstract
Purpose: to analyze children's representation of nasalization in spelling and the effect of their metalinguistic skills on such representation.
Methods: 2nd-5th graders were given tasks in order to evaluate phonological skills (alliteration, phoneme deletion and spoonerism), morphological awareness and their spelling, in particular, their understanding of the different ways regarding nasal sounds' representation and their usage contexts.
Results: it was relatively easy for children to represent nasal cluster (vowel + n) and the nasal diphthong (ão) in nouns. However, they found it difficult to deal with contextual and morphological rules in order to represent nasal segments. Significance and positive correlations were observed between both phonological and morphological awareness and the spelling of nasal sounds. However, after controlling the schooling, only phonological tasks (deletion and spoonerism) had a significant contribution for nasalization representation.
Conclusion: children do not usually have a uniform manner to represent nasal sounds. They understand that nasalization has different ways to be represented and usage contexts, although they are not able to use all of them appropriately. Differently from phonological skills, morphological awareness did not show an independent contribution to the representation of nasalization after controlling the schooling.
Keywords
Referencias
1. Bryant P, Nunes T. Morphemes, spelling and development: comments on "The timing and mechanisms of children's use of morphological information in spelling" by S. Patcon and H. Deacon. Cognitiv Dev. 2008; 23(3):360-9.
2. Meireles ES, Correa J. A relação da tarefa de erro intencional com o desempenho ortográfico da criança considerados os aspectos morfossintáticos e contextuais da língua portuguesa. Estud Psicol. 2006; 11(1):35-43.
3. Treiman R, Kessler B. Spelling as statistical learning: using consonantal context to spell vowels. J Educ Psychol. 2006; 98(3):642-52.
4. Davis C, Bryant P. Causal connections in the acquisition of an orthographic rule: a test of Uta Frith's developmental hypothesis. J Child Psychol Psychiatr. 2006; 47(8):849-56.
5. Bowman M, Treiman R. Are young children logographic readers and spellers? Sci Stud Read. 2008; 12(2):153-70.
6. Critten S, Pine K, Steffler D. Spelling development in young children: a case of representational redescription? J Educ Psychol. 2007; 99(1):207-20.
7. Correa J, Maclean M, Meireles ES, Lopes TC, Glockling D. Using spelling skills in Brazilian Portuguese and English. J Port Linguist. 2007; 6(2):61-82.
8. Vieira RMR, Grosso PMP, Zorzi JL, Chiappetta ALML. Estudos comparativos sobre a influência da leitura nos erros da escrita entre meninos e meninas de quarta série. Rev. CEFAC. 2006; 8(3):281-8.
9. Zorzi JL, Ciasca SM. Caracterização dos erros ortográficos em crianças com transtornos de aprendizagem. Rev. CEFAC. 2008; 10(3):321-31. dx.doi.org/10.1590/S1516-18462008000300007
10. Bernstein SE. Phonology, decoding, and lexical compensation in vowel spelling errors made by children with dyslexia. Read Writ. 2009; 22(3):307-31.
11. Mota MMPE, Silva K. Consciência morfológica e desenvolvimento ortográfico: um estudo exploratório. Psicol Pesq. 2007; 1(2):86-92.
12. Chliounaki K, Bryant P. How children learn about morphological spelling rules. Child Dev. 2007; 78(4):1360-73.
13. Alcock K, Ngorosho D. Learning to spell and learning phonology: the spelling of consonant clusters in Kiswahili. Read Writ. 2007; 20(7):643-70.
14. Rego LLB, Buarque LL. Consciência sintática, consciência fonológica e aquisição de regras ortográficas. Psicol Reflex Crit. 1997; 10(2):199-217.
15. Mota MMPE, Aníbal L, Lima S. A morfologia derivacional contribui para a leitura e escrita em português? Psicol Reflex Crit. 2008; 21(2):311-8.
16. Nagy W, Berninger VW, Abbott RD. Contributions of morphology beyond phonology to literacy outcomes of upper elementary and middle-school students. J Educ Psychol. 2006; 98(1):134-47.
17. Deacon SH, Bryant PE. Getting to the root: young writers' sensitivity to the role of root morphemes in the spelling of inflected and derived words. J Child Lang. 2006; 33(2):401-17.
18. Simões D. Considerações sobre a fala e a escrita. São Paulo: Parábola Editorial; 2006.
19. Silva CT. Fonética e fonologia do português: roteiro de estudos e guia de exercícios. 3. ed. São Paulo: Contexto; 2002.
20. Mateus MHM. Sobre a natureza fonológica da ortografia portuguesa. Est Língua. 2006; 3(1):159-80.
21. Magnan A, Bianchéri P. Le traitement des voyelles nasalisées et des groupes consonantiques par l'apprenti-lecteur francophone. Int J Psychol. 2001; 36(5):301-13.
22. Snowling MJ. The spelling of nasal clusters by dyslexic and normal children. Spelling Prog Bull. 1982; 22(1):13-8.
23. Treiman R, Zukowsky A, Richmond-Welty ED. What happened to the "n" of sink? Children's spellings of final consonant clusters. Cognition. 1995; 55(1):1-38.
24. Carraher TN. Explorações sobre o desenvolvimento da competência em ortografia em português. Psicol Teor Pesq. 1985; 1(3):269-85.
25. Zorzi JL. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: questões clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed; 2003.
26. Meireles ES, Correa J. Regras contextuais e morfossintáticas na aquisição da ortografia da língua portuguesa por criança. Psicol Teor Pesq. 2005; 21(1):77-84.
27. Martins CC, Michallick-Triginelli MF. Codificação fonológica e ortográfica na dislexia de desenvolvimento: evidência de um estudo de caso. Arq Bras Psicol. 2009; 61(1):153-61.
28. Correa J, Dockrell JE. Unconventional word segmentation in Brazilian children's early text production. Read Writ. 2007; 20(8):815-31.
29. Stein LM. TDE – teste de desempenho escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo; 1994.
30. Tasca M, Poersch JM, organizadores. Suportes linguísticos para a alfabetização. Porto Alegre: Sagra; 1986.
31. Pinheiro AMV. Contagem de frequência de ocorrência de palavras expostas a crianças na faixa pré-escolar e séries iniciais do 1º grau. São Paulo: Associação Brasileira de Dislexia; 1996.
32. Deacon SH, Bryant P. What young children do and do not know about the spelling of inflections and derivations. Dev Sci. 2005; 8(6):583-94.
Submitted date:
01/06/2009
Accepted date:
04/10/2009
